CRÍTICA | “Cara-de-Barro” abraça o body horror e traz um drama consistente (e angustiante) ao DC Studios

Apostando arriscadamente em um personagem pouco conhecido dos quadrinhos, a DC Studios ousa, trazendo para as telonas seu novo filme: “Cara-de-Barro” (Clayface)

O estúdio transforma a origem de um dos antagonistas mais trágicos do Batman em um exemplar genuíno de body horror e drama visceral. Dirigido por James Watkins (Não Fale o Mal) a partir do roteiro assinado por Mike Flanagan, Cara-de-Barro é uma grata e incômoda surpresa, ao construir uma narrativa que se constrói no calor da vaidade da indústria do entretenimento e a destrói com inteligência, momentos grotescos e, francamente, nojentos.

A trama acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um promissor ator de Hollywood no auge da carreira, prestes a consolidar seu prestígio, que tem o rosto e a reputação brutalmente mutilados após se envolver com a mulher do perigoso mafioso Marko Szabo (David Dencik). Desesperado para recuperar a estética que garantia seu sustento, sucesso e magnetismo, Hagen recorre a um tratamento médico experimental liderado pela Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie). O resultado da cobaia humana, contudo, é uma espiral de mutação e insanidade, onde o protagonista descobre a habilidade de alterar sua forma, a um custo aterrador.

A atuação de Tom Rhys Harries brilha justamente no equilíbrio entre a vaidade hipnotizante do astro, o desespero e a entrega à suas escolhas duvidosas. No campo visual e técnico, Watkins demonstra habilidade ao flutuar entre o fascinante e o grotesco. O filme não poupa o espectador nas sequências de deformação corporal, cirurgias plásticas e oferece um prato cheio para quem curte terror corporal. A qualidade dos efeitos visuais aliados ao primor da maquiagem garantem momentos tão realistas que provocam a repulsa do olhar, ao mesmo tempo em que não dá para parar de assistir.

“Cara-de-Barro” surpreende positivamente com uma boa história e é um sopro de frescor no saturado subgênero de filmes de heróis e vilões. Ao priorizar a tragédia humana em detrimento da fórmula convencional de blockbusters, o filme prova o potencial da versatilidade que outros gêneros cinematográficos podem agregar ao universo de HQs, e entrega uma das experiências mais aflitivas e instigantes do ano.

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